Liberdade de imprensa: Brasil fica estagnado em 102º lugar

0

 

O Brasil subiu uma posição no Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa,
produzido anualmente pela RSF (Repórteres Sem Fronteiras), passando do
101º lugar em 2017, para o 102º lugar. A apresentação da publicação que
avalia a situação da liberdade de imprensa no mundo foi realizada
simultaneamente no Rio de Janeiro, Paris, Londres, Washington, Túnis, na
Tunísia, e Seul, na Coréia do Sul, nesta quarta-feira (25).



O primeiro lugar do ranking, como o país mais favorável para a atuação
da imprensa ficou a Noruega. A última posição foi ocupada pela Coréia do
Norte, onde a situação dos jornalistas é a mais crítica. Na América
Latina, a Costa Rica é o único país que aparece entre os mais
favoráveis, na 10°posição. Já Cuba é o pior da região, em 172° lugar. O
México, que aparece na posição 147º, é apontado como o segundo país que
mais mata jornalistas no mundo, ficando atrás apenas da Síria, que está
em 177° lugar. Em 2017, ao menos 11 profissionais de imprensa foram
assassinados no país latino em relação direta com a profissão.



Para Emmanuel Colombié, diretor regional para a América Latina da RSF,
essa posição (102º lugar) não significa melhora no cenário brasileiro
para a atuação de jornalistas. 



— O fato de que o Brasil melhorou uma posição, não diz muito, o país
está estagnado. Olhando índice por índice, teve uma queda ligeira no
número de agressões a jornalistas no país ano passado. Pode justificar
essa melhora, mas os problemas principais permanecem.



O ranking avalia o panorama da imprensa em 180 países, analisando o
pluralismo, a independência dos meios de comunicação, qualidade do
quadro legislativo e segurança dos jornalistas.



Uma das principais questões analisadas no ranking é a violência contra
os jornalistas. No Brasil, por exemplo, 99 casos de agressões a
jornalistas foram registrados pela Fenaj (Federação Nacional do
Jornalismo), conforme pontuou Rogério Sottili, diretor executivo do
Instituto Vladmir Herzog.



Outro dado importante sobre a situação brasileira com relação a este
tópico é que, se analisados os dados de 2010 a 2017, o país aparece como
o segundo país da América Latina que mais mata jornalistas, apontou
Colombié.



— O Brasil é o segundo país da América Latina com o maior número de
jornalistas assassinados, atrás apenas do México. Registramos ao menos
26 casos em que jornalistas foram mortos por motivos diretamente
relacionados com o exercício profissional. Em muitos outros casos de
assassinatos, não conseguimos identificar elementos suficientes que nos
permitem afirmar uma relação direta entre a morte e a atividade
jornalística, o que não significa que não haja.



Profissionais de imprensa também acabam sendo alvos em manifestações,
principalmente os de grandes veículos, que segundo o diretor da RSF,
ficam entre o risco de agressões da polícia e também são hostilizados
por manifestantes.



Para a jornalista Flávia Oliveira, que também participou do lançamento
do ranking, a desregulamentação da profissão influencia na segurança e
na liberdade de imprensa.



— Na medida em que a gente reduz o grau de formalização do profissional
e se torna mais flexível, no ponto de vista da inserção do mercado de
trabalho, isso nos expõe muito mais violentamente, seja à violência
física, seja à pressões político-econômicas.



A jornalista também pontuou a situação do Rio de Janeiro, que passou
por mudanças na cobertura de segurança desde a morte do jornalista Tim
Lopes, em junho de 2002. Segundo ela, a partir da morte dele, houve um
desequilíbrio em relação às fontes de informação que seguem até os dias
de hoje.



— Eu gosto de dizer que um jornalismo que deveria ser de segurança
pública é um jornalismo de polícia, porque tem a polícia, basicamente,
como fonte. Então tem um viés que preocupa na formação de massa crítica.
Muitas das comunidades, dos moradores, líderes comunitários, eles
acabam não sendo ouvidos, acessados, as comunidades não são visitadas.



Outra questão demonstrada por Flávia é a formação universitária, que
não prepara os estudantes para atuar com direitos humanos e com noções
de como se proteger.



— Nós temos deficiência na formação para direitos humanos, não saímos
da faculdade equipados com conceitos básicos de direitos humanos e nem
de autoproteção, algum treinamento, conhecimento básico sobre medidas de
segurança que poderíamos usar seja em razão de matérias mais
investigativas ou pelo próprio cotidiano do exercício profissional, em
que o jornalista está muito exposto, como nas manifestações.



Eleições


A polarização política vivida no Brasil é um ponto que preocupante,
principalmente em um ano eleitoral, segundo a RSF. De acordo com
Comlombié, esse período é tradicionalmente marcado pelo aumento de casos
de violência contra jornalistas.



Flávia Oliveira fala que o ódio crescente contra os jornalistas têm sido crescente.



—Vai ser um 2018 tenso para o jornalismo brasileiro em razão dessa
polarização e do ódio crescente, sobretudo nas redes sociais. Ódio,
ameaças, ataques têm se naturalizado contra o jornalismo brasileiro.
Acho que tem a ver também com certa fragilidade democrática, do
esgarçamento, institucional que a gente tem vivido.



Rede de denúncias


Sottili destacou que as agressões e ameaças não são sofridas somente
nas grandes cidades, onde estão concentrados os principais veículos de
comunicação do Brasil. Segundo ele, o Instituto Vladmir Herzog também
acompanha o debate e a defesa de jornalistas ameaçados de mortes.



De acordo com o diretor do instituto, além de jornalistas formais,
blogueiros, pequenos jornais e radialistas também são vítimas de ameaças
no interior do país. Tais ameaças são, para ele, um risco à democracia.



— Quando se ataca o jornalista, quando se ataca os comunicadores, nós
estamos também o direito da sociedade ser informada de forma adequada. A
liberdade de expressão é imprescindível à democracia.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui