Especialistas questionam fim do racionamento de água em junho

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Após um ano e quatro meses, o racionamento de água no Distrito
Federal tem dia para acabar: 15 de junho. Com a suspensão dos cortes no
abastecimento nessa data, a segurança hídrica da população estará
assegurada, afirmou o governador Rodrigo Rollemberg, que anunciou a medida na manhã desta quinta-feira (3/5). Nem todos, porém, compartilham da certeza do governo.

O
coordenador do curso de Engenharia Ambiental e Sanitária da
Universidade Católica de Brasília (UCB) e membro do Conselho de Recursos
Hídricos do DF, Marcelo Resende, acredita que é cedo para pôr fim ao
racionamento. Para ele, enquanto as obras de Corumbá IV (que deve
abastecer a parte sul do Distrito Federal) não estiverem prontas, o
Distrito Federal corre risco de ficar sem água. 
“Tecnicamente, não é o momento para fazer esse tipo de anúncio. O
fim do racionamento deveria ter sido decretado só a partir do momento em
que todas as obras já estivessem prontas. O mais razoável seria
esperar, ao menos, até o fim do ano”, comenta o especialista. Segundo
ele, agora o DF precisa contar com a sorte de ter uma boa estação
chuvosa a partir do fim do ano para que a população não volte a sofrer
com a crise hídrica.

Para Demétrios Christofidis, professor
de gestão de recursos hídricos no Departamento de Engenharia Civil e
Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), a falta d’água não é uma
exclusividade do Distrito Federal, mas sim uma realidade preocupante na
maioria das grandes cidades brasileiras. 

Menos
otimista que o governo, o professor também acredita que o GDF não
deveria se valer apenas na construção de Corumbá IV para garantir o
abastecimento da região. “Eu não recomendo que a crise do abastecimento
seja enfrentada como maior oferta, mas como menor consumo. Pode ser que
Corumbá VI só fique pronto depois do período da chuva, aí vamos correr,
possivelmente, um pequeno risco”, comenta. 

Segundo
ele, em Brasília, racionar a água foi importante para garantir que toda
população tivesse o recurso, mesmo com o corte de um dia. No entanto,
resolver essa questão passa, segundo ele, pelos cidadãos. É migrar do
racionamento imposto pelo governo ao “racionamento racional, onde cada
cidadão assume o compromisso de usar água com responsabilidade”,
acredita. 

População preocupada

Desde que o
rodízio foi instituído, os cerca de 3 milhões de moradores do Distrito
Federal tiveram que mudar hábitos, reduzir o consumo e se acostumar com a
ameaça de não ter água em casa. Em 3 de maio do passado, o Descoberto
registrava volume de 56,3% de sua capacidade. Nesta quinta, a marca
estava em 91,1%. Em Santa Maria, o índice chegou a 56,5%, contra 53,8%,
em 2017.

Mesmo com os altos índices, parte da
população teme que a suspensão seja precipitada. Em enquete promovida
pelo Correio na internet, por exemplo, 72% dos leitores disseram que não
concordavam com a medida.
 

Nesta quinta-feira, mais leitores demonstraram preocupação quanto à
segurança de determinar o fim do racionamento. O GDF respondeu esses
internautas informando que a decisão foi tomada com base em critérios
técnicos e apoiado em estudos da Caesb e da Adasa, que garantem a
segurança hídrica no DF.
 
“Na menos otimista das
estimativas, o reservatório do Descoberto, por exemplo, continuaria
acima de 20% de sua capacidade, o que garante o abastecimento com
tranquilidade até o próximo período de chuvas. Além disso, até lá,
teremos Corumbá IV em operação, com 2,8 mil litros por segundo a mais de
água para o DF”, informa a nota. 

Para o
presidente do Instituto Brasília Ambiental (Ibram), Aldo Fernandes,
racionar a água é apenas uma parte do trabalho de conscientizar a
população sobre o uso responsável do recurso. “Nós esperamos que o uso
sustentável da água, que foi intensificado em função da crise hídrica,
ajude as pessoas a ter consciência de que precisam continuar
economizando”, diz.

Ele comenta que o período
de racionamento impulsionou os órgãos ambientais a desenvolverem
projetos de recuperação das bacias, como, por exemplo, o programa
Produtor de Água no Pipiripau, que recuperou parte do manancial,
considerado um dos mais importantes do DF. A bacia garante abastecimento
hídrico das populações de Planaltina e Sobradinho. Já foram plantadas
350 mil mudas pelos 177 produtores contratados. “O conjunto das ações
dentro da bacia acaba aumentando a produção de água, além de
intensificar outros trabalhos, como, por exemplo, a fiscalização do mau
uso da água”, finaliza.

Consumo de água no DF

 

O consumo doméstico de água no DF chega a 82,5% da produção de água
tratada, segundo a Caesb. Esse número, somado ao contexto de seca no
Planalto Central faz com que o sistema de abastecimento chegue ao limite
nos horários de pico. Para se ter ideia, a captação média mensal atual é
de 7.045 litros por segundo, por conta do racionamento. Oferta menor
que o consumo do ano passado, que teve média de 7.897 litros por
segundo.

Um avanço na economia de água. Em dois
anos, a população do Distrito Federal reduziu o consumo de água por
pessoa de 184 litros diários – um dos maiores do país – para 128 litros,
segundo a Caesb.

Obras do Corumbá IV

Em obras há 13
anos, o Corumbá IV já está com 73% de sua estrutura concluída, segundo a
Companhia de Saneamento do Distrito Federal (Caesb). O Lago Corumbá,
com 173 quilômetros quadrados, tem capacidade para abastecer até 1,3
milhões de pessoas. O valor para a realização da obra é de R$ 550
milhões. Com a execução de Corumbá IV, o governador do DF afirmou que
serão resolvidos os problemas de crise hídrica em Brasília pelos
próximos 30 anos. A previsão do GDF é que as obras estejam concluídas
até dezembro deste ano.

Captação de água do Lago Paranoá

Em
janeiro deste ano, a Caesb inaugurou um sistema de bombeamento de água
da estação emergencial do Lago Paranoá até a estação de tratamento do
Plano Piloto. O “booster” custou R$ 1,4 milhão, e a verba veio da tarifa
de contingência. Na prática, isso faz com que a água do lago – que era
distribuída apenas para Lago Norte, Varjão, Paranoá e parte de
Sobradinho – também chegue nas Asas Sul e Norte, Noroeste e Sudoeste. De
acordo com a Caesb, com isso, a intenção é poupar ainda mais o
reservatório do Descoberto
. correio brasiliense.
 

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